terça-feira, 8 de abril de 2014

Carta Anônima

Olá,

  Acho que já te contei que passei por uma depressão. Foi a pior fase da minha vida e me afetou brutalmente. Mas não é sobre isso que quero falar. O caso é que, algum tempo depois que melhorei, me vi impossibilitada de chorar - algo absurdo para o tipo de pessoa que chora vendo desenho animado e comédias românticas. Veja bem, eu ainda me sentia triste, com um nó na garganta, mas as lágrimas não vinham. Não havia drama que molhasse minhas pálpebras. Nem mesmo raiva. Comecei a me preocupar de verdade.

  Bom, eu estava chorando agora a pouco. Também chorei dois dias atrás. E me sinto disposta a chorar mais um bocado.

  Enfim, muito obrigada.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ansiedade

Hoje eu acordei
Pensando em você
Que não larga mais de mim
Não sei nem dizer por que

Tomei um, dois, três
Comprimidos só pra ver
Se você desiste enfim
Já to pra enlouquecer

Eu dei entrada na urgência
O médico tava sem paciência
Meu bem, me deixa respirar
Larga o meu pescoço que não para de entortar

Eu to parecendo doida, meu amor
Olhando os lados morrendo de pavor
Com medo que você apareça
Eu to cansada de ser doente da cabeça

Todo mundo acha descolado
Ter um monte de transtorno, tomar remédio controlado
Mas, querido, eu não aguento mais
Então sai da minha frente, eu só to querendo paz.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Autorretrato

Poucas coisas na vida
causam tanto estrago
quanto experimentar
o que não se pode ter.

Poucas coisas na vida
dilaceram tanto um peito
quanto uma decepção
que encontramos ao acaso.

Poucas coisas na vida
são tão cruéis quanto
dar falsas esperanças
a um doente.

A vida é feita de muitas coisas certamente.
Mas nenhuma machuca tanto
quanto não conseguir ser feliz.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Dependência

Minha cabeça só funciona
quando meu peito dói.
Deve ser por isso que eu destruo
cada setor da minha vida
com tamanha meticulosidade.
Para me manter pensante,
eu preciso da dor.
Mas preferia não pensar em nada.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Hoje ou Amanhã, Tanto Faz

Já cheguei a cogitar que minha cabeça nunca mais vai parar de doer.
Que eu nunca mais terei uma mente saudável.
Que meu coração nunca mais vai parar de apertar.
Que eu serei uma eterna escrava dos remédios controlados.

E, talvez, seja verdade.
Talvez.

Cigarros

Acho que encontrei o motivo real para fumar cigarros.
Já experimentei sim, várias vezes. Já até tentei me convencer de que gostava, porque pareço muito menos insegura e desengonçada com um cigarro entre os dedos. E seria bom assumir de vez a atitude badass que algumas pessoas parecem ver em mim (sei lá o que elas veem).
Mas não é isso. Um cigarro é uma desculpa para se afastar. Dar uma saidinha. "Dá licença, vou fumar um cigarro". Não é nada, só uma desculpa.
Você quer ir embora, mas são 21h e a festa mal começou. Aí você vai pro seu lugar afastado, acena entre risinhos. E, não sei se também pelo cigarro ou só pelo tempinho ausente, você volta disposto a aguentar mais um pouco.
Até o próximo cigarro.

Acho que vou fingir que fumo. Fumar ainda é socialmente mais aceitável do que uma licencinha porque não aguenta mais a cara de ninguém.

domingo, 23 de junho de 2013

Incolor


E é triste que um poema tão bonito
seja tão antigo, e eu o sinta tão recente.
E é tão triste que algo tão sincero
cultivado com tanto esmero, suma de repente.